
Renato Fragoso
No domingo último, 19, a deputada estadual de São Paulo, pelo PSL, Janaína Paschoal, postou em suas redes sociais uma thread informando seu não alinhamento com as manifestações em prol do governo Bolsonaro, previstas para acontecerem pelo país neste domingo domingo, 26 de maio, afirmando que “essas manifestações não têm RACIONALIDADE” e que Bolsonaro vai ter de “parar de fazer drama para TRABALHAR!”, se não houver evidente apoio nas ruas, o que desagradou profundamente simpatizantes e correligionários, ilustrando mais um capítulo da falta de consonância na base do governo e de uma crise de credibilidade e identidade dos partidos políticos no Brasil.

Rostand Melo, professor da UEPB e doutor em Ciências Sociais pela UFCG, afirma que “os partidos no Brasil sofrem, em sua maioria, com um esvaziamento ideológico”, processo que já ocorreria a pelo menos duas décadas. Na visão de Rostand, “entre os fatores que contribuem para isso está o modelo que privilegia a figura pessoal em detrimento das legendas”, e prossegue, “nossos eleitores estão acostumados a seguirem lideranças que personificam o poder em seus nomes ao invés de associações ou partidos”. Em agosto do ano passado, em pesquisa pelo instituto Datafolha, 52% dos eleitores disseram não preferir nenhum partido, enquanto o partido mais citado como preferido, o PT, representava 24%, seguido por MDB e PSDB, ambos com 4% cada.

Neste sentido, nos últimos anos, diversas siglas alteraram sua denominação, retirando delas a menção à “partido” e transformando-as em verdadeiros slogans, clara manobra de marketing. A estratégia, que imita o modelo de outros países, como dos Estados Unidos, pode ser interessante, mas também se tornar inócua e não diluir o desgaste se não houver uma alteração também nas práticas dos membros do partido, como ressalta Rostand.
A crise ideológica e identitária dos partidos veio sendo agravada desde as chamadas Jornadas de Junho, perpassando pela Lava Jato e tendo como um de seus ápices o impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2015, que contou com Janaína como coautoria do processo. A deputada também é uma das defensoras do direito a candidaturas avulsas e do fim dos partidos. Rostand Melo pontua que isso “vai na contramão de leis que tentam combater a infidelidade partidária”, além de “dificultar a formação de bancadas no Congresso e tornar ainda mais caótico o cenário de articulação política”.
Partidos políticos, por definição, são parte essencial no exercício da democracia representativa, uma vez que se configuram, em teoria, como grupos formados pela unidade de preferências políticas e ideológicas, servindo como canal de representação de opiniões comuns e específicas dos diversos grupos sociais. Sua origem remonta aos grupos da nobreza que participavam da disputa pela proximidade e pela influência sobre os reis, porém é depois da Revolução Francesa que assumem um caráter representativo mais estreito com os interesses, inicialmente da burguesia e, com o passar do tempo, dos diversos públicos.

Assis Souza de Moura, professor da UFCG, especialista em Gestão Pública, Direitos Fundamentais e Democracia e presidente do Instituto Sou Assis, iniciativa voltada para a formação cidadã, a produção e a construção de conhecimentos no campo das Ciências Humanas, comandou pesquisas nos 50 menores municípios paraibanos e constatou que “os debates políticos são raros e o despreparo é visível”, além de que, gradativamente, “menos jovens estão presentes em sua vida político-partidária”. Frente à urgência desta situação, grupos independentes têm surgido com a proposta de trazer conteúdos técnicos e teóricos visando a formação de pessoas para o exercício da política, como o Acredito e o RenovaBR, este segundo que conseguiu levar novos nomes ao congresso, como o de Tabata Amaral (PDT) e o de Daniel José (Novo), que, inclusive, militam em legendas opostas no cenário político.
O Instituto Sou Assim também lançou no mês de março o Projeto Escola de Jovens Vereadores que, ainda em fase de divulgação, já recebeu o contato de 36 jovens de mais de 20 municípios. O projeto selecionará jovens entre 18 e 29 anos, moradores de cidades com até 30 mil habitantes, que tenham interesse em ingressar no campo político. A participação é gratuita e não foca em determinada visão política, também não tendo nenhum tipo de financiamento de frentes políticas ou privadas, essencialmente pautadas no voluntarismo dos professores convidados. Para Assis, “parte da população está cansada ou não tem o devido conhecimento sobre o universo político e, simplesmente, ausenta-se”, daí a iniciativa de partir na contramão, concebendo “a política como necessária e fundamental e que a participação popular é condição indispensável deste processo”.
Esses grupos prezam pela pluralidade e pelos debates das questões sociais, representando um novo e real âmbito de exercício das opiniões e propostas, além de se aproximar daquilo que funcionalmente os partidos deveriam ser. Porém, Rostand afirma que “estes grupos não chegam a substituir os partidos, mas de fato representam um modo de organização alternativa em relação ao modelo tradicional”. Assis completa que os partidos são necessários e é preocupante ver surgir propostas que visem sua dissolução, segundo ele “a sociedade precisa participar destes processos para entender antes de decidir”.
Rostand finaliza pontuando que o problema, no caso do PSL, é priorizar o embate nas redes em detrimento da atuação política e cita a foto recentemente publicada na Folha de São Paulo que mostra inúmeros deputados da bancada do PSL fazendo lives simultaneamente em reclamação, durante a sessão na Câmara que votou a retirada do Coaf do Ministério da Justiça. “Ao invés de buscar a articulação para evitar a derrota do governo na votação, usam a derrota como vitrine para os seguidores. Pode funcionar, num primeiro momento, para convencer parte da opinião pública e gerar movimentos de pressão, mas pode trazer transtornos para a relação institucional entre governo e congresso”, finaliza.
*Material experimental produzido sob caráter acadêmico












