O ex-presidente Jair Bolsonaro, internado nesta sexta-feira (13) no Hospital DF Star, em Brasília, para tratar uma broncopneumonia bacteriana bilateral, apresenta sinais de melhora, mas ainda necessita de aporte de oxigênio e enfrenta um quadro renal transitório. De acordo com boletim médico divulgado neste domingo (15), ele já se alimenta por via oral com dieta pastosa, depois de um período em jejum, e recebe 2 litros de oxigênio por minuto por meio de cateter nasal, sem necessidade de entubação.
A equipe médica informou que o ex-presidente apresentou piora da função renal nas últimas horas, um quadro considerado normal para o diagnóstico e que deve persistir por pelo menos mais 24 horas. Bolsonaro foi internado com broncopneumonia aguda aspirativa, causada por gastroparesia — condição que resulta em digestão lenta —, agravada por alimentação inadequada antes de dormir, incluindo comida pesada ou mal mastigada. Ele sentiu calafrios, falta de ar e cansaço extremo, o que motivou a internação de emergência.
A versão do médico particular
O cardiologista Brasil Caiado, membro da equipe particular que acompanha Bolsonaro, concedeu entrevista na porta do hospital e classificou o estado de saúde do ex-presidente como “grave”. Segundo ele, o quadro atual é “maior” e “mais acentuado” em relação a complicações médicas anteriores enfrentadas por Bolsonaro. “É um quadro grave, sim, em torno da agressão da própria bactéria no pulmão”, afirmou.
Caiado foi questionado diretamente se o tempo de deslocamento entre o Complexo Penitenciário da Papuda, onde Bolsonaro cumpre pena, e o hospital poderia ter contribuído para o agravamento do estado clínico. A distância entre os dois pontos é de cerca de 27 quilômetros. O médico foi enfático ao descartar essa hipótese: “Eu acho que foi pela agressão da própria bactéria no pulmão”. Com isso, ele afastou um dos principais argumentos usados pela defesa para pleitear a prisão domiciliar humanitária.
O fator deslocamento e a batalha judicial
A internação de Bolsonaro reacendeu o debate sobre as condições em que ele cumpre pena. Condenado pelo STF por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente está preso na Papuda desde o ano passado. Sua defesa tem reiteradamente pedido ao Supremo Tribunal Federal a concessão de prisão domiciliar humanitária, alegando que o deslocamento entre o cárcere e unidades hospitalares poderia acarretar complicações clínicas, especialmente diante de seu histórico de cirurgias intestinais e fragilidades de saúde.
O ministro Alexandre de Moraes, relator da ação que resultou na condenação de Bolsonaro, no entanto, tem rejeitado todos os pedidos. Em suas decisões, Moraes argumenta que o ex-presidente dispõe de equipes médicas particulares e da unidade prisional 24 horas por dia, além de ter autorização para se deslocar a qualquer hospital em situações de emergência sem necessidade de autorização prévia da Corte. A declaração de Brasil Caiado, ao desvincular o deslocamento do agravamento clínico, pode fortalecer a posição do ministro em futuras negativas.
O histórico de saúde de Bolsonaro
Jair Bolsonaro tem um histórico médico complexo. Ele já passou por múltiplas cirurgias intestinais, decorrentes da facada que sofreu durante a campanha presidencial de 2018. Esses procedimentos deixaram sequelas, como aderências e problemas de motilidade intestinal, que o tornam mais suscetível a quadros como a gastroparesia — condição na qual o estômago demora mais para esvaziar seu conteúdo, favorendo o refluxo e a aspiração de alimentos para os pulmões.
Foi exatamente isso que ocorreu na última semana, segundo os médicos. Bolsonaro ingeriu alimentos inadequados ou mal mastigados antes de dormir, o que levou à aspiração de partículas e ao desenvolvimento da broncopneumonia. A infecção bacteriana se instalou de forma agressiva, exigindo internação e tratamento com antibióticos de amplo espectro.
O tratamento e a evolução
No hospital, Bolsonaro está sendo monitorado por uma equipe multidisciplinar. O uso de oxigênio suplementar por cateter nasal visa manter a saturação adequada enquanto os antibióticos combatem a infecção pulmonar. A piora da função renal, segundo os médicos, é uma resposta esperada em quadros infecciosos graves, especialmente em pacientes com histórico de desidratação ou uso de medicamentos nefrotóxicos.
A alimentação pastosa foi introduzida gradualmente, após o período de jejum necessário para evitar novas aspirações. A equipe nutricional acompanha de perto a aceitação e a tolerância, ajustando a dieta conforme a evolução clínica. A previsão é que, se não houver intercorrências, Bolsonaro possa evoluir para dieta mais sólida nos próximos dias.
Repercussão política
A internação de Bolsonaro movimentou os bastidores políticos. Aliados do ex-presidente manifestaram solidariedade e cobraram novamente a prisão domiciliar. Parlamentares da oposição, por outro lado, evitaram comentários incisivos, mas monitoram os desdobramentos, já que qualquer alteração no regime de cumprimento da pena poderia ter implicações políticas.
A defesa de Bolsonaro ainda não anunciou se apresentará um novo pedido ao STF com base na internação. A declaração de Brasil Caiado, no entanto, retira força do argumento central — o deslocamento como fator agravante —, o que pode levar os advogados a focar em outros aspectos, como a necessidade de cuidados contínuos e o risco de novas infecções em ambiente prisional.
O que diz a legislação
A prisão domiciliar humanitária é prevista no Código de Processo Penal para casos de doença grave que exija cuidados não disponíveis no estabelecimento prisional. A decisão cabe ao juiz da execução penal ou ao tribunal competente, no caso, o STF. Para concedê-la, é necessário laudo médico atestando a incompatibilidade do estado de saúde com a permanência no cárcere.
No caso de Bolsonaro, o fato de ele ter assistência médica particular 24 horas na Papuda e autorização para saídas emergenciais pesa contra a concessão. Moraes já deixou claro que, enquanto essas condições forem mantidas, não vê motivo para alterar o regime.
Próximos passos
Por enquanto, a prioridade é a recuperação clínica. Bolsonaro deve permanecer internado por mais alguns dias, até que o quadro infeccioso esteja controlado e a função renal se normalize. A equipe médica fará novos exames nas próximas horas para reavaliar a necessidade de oxigênio e a evolução da pneumonia.
Enquanto isso, o STF segue monitorando a situação, mas não há indícios de que a internação atual vá alterar o regime de cumprimento da pena, a menos que haja uma piora significativa que impeça o retorno ao cárcere. Por ora, Bolsonaro permanece na Papuda, sob custódia, e seu estado de saúde, embora grave, é tratado como controlável dentro das condições atuais.










