Imagens de drone mostram alagamento em Juiz de Fora nesta quarta-feira (25) – Foto: TV Globo/ Reprodução
Imagens de drone mostram alagamento em Juiz de Fora nesta quarta-feira (25) – Foto: TV Globo/ Reprodução
Imagens de drone mostram deslizamento de terra em Juiz de Fora nesta terça-feira (24) – Foto: TV Globo/ Reprodução
Imagens de drone mostram ruas e casas alagadas em Matias Barbosa nesta quinta-feira (26) – Foto: Reprodução/TV Globo
Imagens de drone mostram deslizamento de terra em Juiz de Fora nesta terça-feira (24) – Foto: TV Globo/ Reprodução
Imagens de drone mostram deslizamento de terra em Juiz de Fora nesta terça-feira (24) – Foto: TV Globo/ Reprodução
Imagens de drone mostram deslizamento de terra em Juiz de Fora nesta terça-feira (24) – Foto: TV Globo/ Reprodução
Imagens de drone mostram alagamento em Matias Barbosa nesta terça-feira (24) – Foto: TV Globo/ Reprodução
Imagens de drone mostram alagamento em Matias Barbosa na última terça-feira (24) – Foto: TV Globo/ Reprodução
Drone mostra deslizamento de terra em Juiz de Fora nesta quinta-feira (26) – Foto: Reprodução/TV Globo
Morro localizado no bairro do Grajaú, em Juiz de Fora, onde residências foram soterradas por deslizamento de terra – Prefeitura de Juiz de Fora
Bombeiros trabalham na região do Parque Burnier, após deslizamento de terra – Reprodução/TV Globo
Mulher é resgatada após deslizamento no bairro Paineiras, em Juiz de Fora (MG) – Reprodução/TV Integração
Prédio e casas são atingidos por deslizamento no Bairro Paineiras, em Juiz de Fora (MG) – Reprodução/TV Integração
Bombeiros e moradores trabalham após casas desabarem no Parque Burnier, em Juiz de Fora (MG) – Reprodução/TV Globo
Casa desaba em Ubá, na zona da mata de Minas Gerais – Reprodução/TV Globo
Bombeiros trabalham em prédio destruído após desmoronamento em Juiz de Fora (MG)
Bombeiros fazem buscas em prédio que desabou em Juiz de Fora (MG) – Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais/via AFP
Moradores observam trabalho da equipe de resgates de Juiz de Fora (MG) – Bruno Stephan/Prefeitura de Juiz de Fora via Reuters
Carro atingido por deslizamento de terra em Juiz de Fora (MG) – Bruno Stephan/Prefeitura de Juiz de Fora via Reuters
Equipe de resgate procura sobreviventes no Parque Jardim Burnier, em Juiz de Fora (MG); 440 pessoas estão desabrigadas – Eduardo Anizelli/Folhapress
Bombeiros em busca de sobreviventes no Parque Jardim Burnier; chuvas atinges a região desde segunda (23) – Eduardo Anizelli/Folhapress
Equipes de resgate no Jardim Parque Burnier, em Juiz de Fora; cidade decretou estado de calamidade pública – Folhapress
Moradores do Jardim Parque Burnier observam busca por sobreviventes em Juiz de Fora (MG) – Eduardo Anizelli/Folhapress
Cão farejador auxilia bombeiros em Juiz de Fora (MG) – Eduardo Anizelli/Folhapress
Morro que desabou em Juiz de Fora (MG) – Pablo Porciuncula/AFP
Homem carrega cachorro em meio ao trabalho de resgate no Jardim Jardim Burnier, em Juiz de Fora (MG) – Pilar Olivares/Reuters
Pessoas se abraçam em Juiz de Fora (MG) – Pilar Olivares/Reuters
Bombeiros realizam
trabalho de resgate durante busca por sobreviventes soterrados após
forte chuva no Parque Jardim Burnier, em Juiz de Fora, no estado de
Minas Gerais – Eduardo Anizelli/Folhapress
Os temporais que atingem a Zona da Mata de Minas Gerais desde o início da semana transformaram cidades inteiras em cenários de devastação. Deslizamentos de terra e enchentes deixaram ao menos 70 mortos — a maioria em Juiz de Fora — e milhares de desabrigados e desalojados, configurando uma das maiores tragédias recentes já registradas na região, segundo balanços da Defesa Civil estadual e do Corpo de Bombeiros. As mortes se concentram em Juiz de Fora, que soma 64 óbitos, e em Ubá, com outras 6 vítimas, enquanto equipes de resgate ainda procuram desaparecidos entre escombros e áreas alagadas.
Veja a seguir:
Juiz de Fora (MG) – Reprodução/CNN Brasil
Juiz de Fora (MG) – Reprodução/CNN Brasil
Alerta máximo antes da tragédia
Dias antes da tragédia ganhar as dimensões atuais, órgãos de meteorologia já alertavam para o risco extremo em Minas Gerais. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um alerta vermelho de acumulado de chuva para 365 cidades mineiras, incluindo municípios da Zona da Mata, do Vale do Rio Doce, do Sul, do Oeste e da Região Metropolitana de Belo Horizonte, com previsão de volumes acima de 100 milímetros por dia e risco de grandes alagamentos, transbordamentos de rios e deslizamentos de encostas. O aviso, considerado o mais grave na escala do instituto, tinha validade até a noite do dia 27 de fevereiro e já indicava a possibilidade de danos severos à população.
Paralelamente, estudos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e de órgãos federais vinham apontando a alta vulnerabilidade de Minas Gerais a desastres associados às chuvas. De acordo com o Cemaden, 283 dos 853 municípios mineiros são classificados como suscetíveis a deslizamentos, enxurradas e inundações, o que coloca cerca de 1,4 milhão de pessoas em situação de risco em períodos chuvosos. Esse quadro estrutural de fragilidade ajuda a explicar por que episódios de chuva extrema, como os registrados em fevereiro, têm potencial tão destrutivo no estado.
Inundação histórica em Ubá
Um dos primeiros retratos dramáticos da força das águas veio de Ubá, na Zona da Mata. Entre a noite de segunda-feira (23) e a madrugada de terça (24), o Rio Ubá atingiu a marca de 7,82 metros, provocando uma inundação considerada histórica pelas autoridades locais. Segundo a Defesa Civil, o município registrou um acumulado de cerca de 170 milímetros de chuva em apenas três horas, volume suficiente para alagar o centro da cidade, arrastar veículos, derrubar estruturas e deixar casas e comércios completamente submersos.
Com o transbordamento do rio e de córregos urbanos, a prefeitura decretou estado de calamidade pública. Ruas inteiras ficaram cobertas de lama, caixões foram arrastados de um cemitério e imóveis desabaram em áreas mais vulneráveis, construídas próximas a encostas ou margens de cursos d’água. Em meio ao caos, a cidade registrou as primeiras mortes relacionadas ao temporal: seis pessoas perderam a vida em ocorrências ligadas a alagamentos, deslizamentos e desabamentos, conforme balanço do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil.
Escalada das mortes em Juiz de Fora
Enquanto Ubá enfrentava a enchente histórica, Juiz de Fora, também na Zona da Mata, começava a contabilizar suas próprias perdas. As chuvas intensas entre os dias 22 e 24 de fevereiro provocaram deslizamentos de encostas, enchentes em bairros inteiros e o colapso de estruturas em áreas de morro. Em poucos dias, o número de vítimas fatais na região disparou.
Novos temporais, ocorridos entre os dias 24 e 25, agravaram o cenário em Juiz de Fora. Deslizamentos adicionais atingiram casas em bairros como Jardim Natal, na zona norte da cidade, onde imóveis vieram abaixo e escombros obstruíram córregos, provocando alagamentos ainda maiores nos imóveis situados nas partes mais baixas. Moradores relataram enxurradas que subiram em poucos minutos, pegando famílias de surpresa e destruindo móveis, documentos e lembranças de uma vida inteira.
No dia 26, a tragédia já somava 55 mortos, segundo atualização do Corpo de Bombeiros, que mantinha ao menos oito frentes de trabalho em Juiz de Fora e Ubá, em buscas que se estendiam dia e noite em meio à lama e aos destroços. Poucas horas depois, um novo balanço elevou o número de mortes para 64 — 58 em Juiz de Fora e 6 em Ubá — e apontou cerca de 4,2 mil pessoas desabrigadas e desalojadas somente em Juiz de Fora, além de mais de 1.600 ocorrências registradas pela Defesa Civil em menos de uma semana.
Balanço mais recente: 70 mortos e milhares sem casa
Com a continuidade das buscas e a localização de novos corpos em áreas soterradas, o número de vítimas seguiu crescendo. Neste sábado (28), reportagens do g1 e de veículos mineiros, com base em dados da Defesa Civil estadual e da Polícia Civil, passaram a falar em 70 mortes na Zona da Mata, das quais 64 em Juiz de Fora e 6 em Ubá. Ainda segundo esse balanço, pelo menos 4 pessoas continuam desaparecidas, e equipes de bombeiros e voluntários seguem mobilizadas em diferentes pontos das cidades atingidas.
Além das vítimas fatais, o impacto social é massivo. Em Juiz de Fora, a prefeitura calcula mais de 4.200 pessoas entre desabrigados (que perderam suas casas e dependem de abrigos públicos) e desalojados (que precisaram deixar suas residências temporariamente). Em Ubá e Matias Barbosa, outro município muito afetado na região, milhares de moradores também tiveram que sair de casa. Um levantamento divulgado pela administração de Ubá aponta mais de 5,5 mil pessoas desalojadas e desabrigadas nas três cidades — Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa — em decorrência direta das chuvas.
Segunda onda de enchentes e o drama dos moradores
Mesmo após o pico das chuvas iniciais, a ameaça não cessou. Em Ubá, quando parte da população tentava recomeçar a limpeza das casas e comércios, um novo temporal voltou a fazer o Rio Ubá transbordar, deixando a cidade novamente debaixo d’água. Moradores relataram que a água chegou a mais de dois metros de altura em alguns pontos, destruindo móveis, eletrodomésticos e documentos. Em imóveis abaixo do nível da rua, o nível da enchente foi ainda maior, obrigando famílias a saírem às pressas para salvar a própria vida.
Depoimentos recolhidos em reportagens de TV mostram o desgaste emocional da população, que perdeu praticamente tudo em questão de horas. Há relatos de pessoas que ficaram horas abraçadas a postes ou partes elevadas das casas para escapar da enxurrada e de famílias que, ao retornarem, encontraram apenas lama, escombros e entulhos onde antes estavam suas casas. Em Ubá, o prefeito classificou a situação como a “maior tragédia” já vivida pelo município, enquanto moradores dizem que “há muitos anos não acontecia uma catástrofe dessa”.
Resposta de emergência dos governos
Diante da dimensão da tragédia, governos estadual e federal anunciaram uma série de medidas emergenciais. O Governo Federal informou o envio de equipes da Defesa Civil Nacional, Forças Armadas e diferentes ministérios para apoiar as buscas, o atendimento aos desabrigados e a recuperação emergencial de infraestrutura, como pontes, estradas e unidades de saúde. Entre as ações, foram liberados recursos específicos para assistência humanitária, restabelecimento de serviços essenciais e apoio social às famílias atingidas.
Portarias do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional autorizaram o repasse de R$ 6,196 milhões para sete municípios afetados por desastres, incluindo Ubá e Matias Barbosa, em Minas Gerais.
Somente para essas duas cidades mineiras, os valores aprovados para assistência humanitária e restabelecimento somam mais de R$ 2 milhões. Em paralelo, o governo federal anunciou um pacote maior de apoio, com mais de R$ 5,4 milhões destinados ao estado para ações de resposta imediata, além de recursos adicionais para programas sociais como o Bolsa Família e auxílios específicos a desabrigados.
As medidas incluem, ainda, envio de kits emergenciais com medicamentos, reforço no atendimento de saúde, apoio logístico às prefeituras e flexibilização de prazos em programas de crédito e renegociação de dívidas para moradores e empresas atingidas. O objetivo é garantir condições mínimas de acolhimento em abrigos, fornecimento de água potável, alimentação, roupas, colchões e itens de higiene às famílias que perderam quase tudo da noite para o dia.
Vulnerabilidade crônica e debate sobre prevenção
A tragédia na Zona da Mata reacendeu o debate sobre a ocupação desordenada de áreas de risco e a política de prevenção a desastres em Minas Gerais. Reportagem do Jornal Nacional destacou que, dos 853 municípios mineiros, mais de 300 são considerados suscetíveis a deslizamentos, enxurradas e inundações, concentrando pelo menos 1,5 milhão de moradores em zonas vulneráveis. Especialistas e órgãos técnicos apontam que a combinação de relevo acidentado, chuvas intensas e urbanização sem planejamento aumenta significativamente o risco de eventos como os registrados em Juiz de Fora e Ubá.
Dados do próprio governo mineiro mostram que houve controvérsia em relação ao volume de investimentos em prevenção aos impactos das chuvas nos últimos anos. Informações do Portal da Transparência estadual indicam redução em determinadas rubricas ligadas a obras e ações preventivas, enquanto o governo afirma que, somando diferentes programas e tipos de equipamentos, o investimento em prevenção e resposta a desastres teria crescido, chegando a R$ 1,9 bilhão em 2025. O contraste entre as estatísticas e a percepção da população, porém, reforça a cobrança por políticas mais efetivas de habitação segura, contenção de encostas e drenagem urbana.
Clima extremo e desafios futuros
Meteorologistas e pesquisadores de institutos federais ressaltam que o episódio de fevereiro se insere em um padrão de aumento de eventos de chuva extrema no Sudeste, associados tanto à variabilidade climática natural quanto ao aquecimento global. Em Juiz de Fora, por exemplo, dados do Inmet mostram que, apenas entre os dias 22 e 24 de fevereiro, choveu 229,9 milímetros — e que, ao longo do mês, o acumulado chegava a 579,3 milímetros até a manhã do dia 24, volume 240% acima da média histórica de fevereiro, que é de 170,3 milímetros.
Mesmo com esses volumes excepcionais, especialistas alertam que chuvas intensas e concentradas não necessariamente significam recuperação adequada de reservatórios e aquíferos, pois a água escoa rapidamente pelas encostas e áreas impermeabilizadas, sem infiltrar no solo em quantidade suficiente. O resultado é um cenário paradoxal, em que o estado enfrenta, ao mesmo tempo, risco de enchentes e deslizamentos em algumas regiões e preocupação com disponibilidade hídrica em outras.
Situação atual e perspectiva
Enquanto as equipes de resgate encerram mais uma semana de buscas em Juiz de Fora e Ubá, o clima ainda inspira preocupação em outras partes de Minas. Novos alertas de chuva intensa foram emitidos para o Leste e o Nordeste do estado, com risco de alagamentos e transtornos em cidades dos vales do Rio Doce e do Aço, entre outras regiões. A manutenção de condições meteorológicas adversas aumenta o temor de que o número de desabrigados cresça e de que o solo encharcado favoreça novos deslizamentos.
A reconstrução nas áreas mais atingidas deverá ser lenta e complexa. Além de restabelecer moradias, comércio e infraestrutura, especialistas e autoridades apontam que será necessário revisar planos diretores, reforçar o monitoramento de encostas, ampliar sistemas de alerta e investir em habitação fora de áreas de risco para reduzir a possibilidade de novas tragédias. Para as famílias que hoje vivem em abrigos ou na casa de parentes, porém, a prioridade imediata segue sendo o básico: ter onde dormir, o que comer e alguma perspectiva de recomeço após uma sequência de dias em que a chuva levou vidas, histórias e territórios inteiros na Zona da Mata mineira.










