Cientista da polilaminina admite erros em artigo e anuncia revisão com resposta sobre choque medular

Tatiana Sampaio confirmou que artigo pré-print trazia imprecisões e erros de digitação; nova versão do texto descarta ocorrência de choque medular, o que era apontado como fator de confusão para resultados da substância.

Publicado: 07/03/2026

A bióloga Tatiana Sampaio é a líder do grupo de pesquisa da UFRJ que desenvolveu a polilaminina. – Foto: Nadja Kouchi/TV Cultura



O que é a polilaminina, molécula testada para tratar lesões medulares?

Imagens: Reprodução/Estadão

A bióloga Tatiana Sampaio, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) responsável pelo desenvolvimento da polilaminina, admitiu, em entrevista ao Estadão, que o artigo com os resultados preliminares do estudo piloto contém erros e imprecisões, e que ele já está sendo revisado para nova submissão para revista científica nos próximos dias.

“O pré-print foi uma versão do artigo que eu coloquei lá só para guardar lugar. Ela realmente não está perfeita, tem a figura que não está boa, tem um erro lá (no gráfico) que está escrito paciente 1 e é paciente 2″, disse a cientista, referindo-se a uma divergência de informação entre um gráfico e uma tabela.

Na tabela, o paciente 1 aparecia como morto no primeiro mês da internação, mas no gráfico, ele era descrito como quem teve ganhos motores após um ano de acompanhamento. O erro foi exposto por cientistas nas redes sociais. O que ocorreu, diz Tatiana, foi um erro de digitação no gráfico que trouxe paciente 1 onde deveria estar escrito paciente 2, o que realmente teve melhora.

Tatiana enviou ao Estadão uma primeira versão revisada do artigo no qual o gráfico ainda não está corrigido, mas que traz esclarecimentos sobre um dos pontos que vinham sendo mais criticados pela comunidade médica e científica: a ausência de informações sobre uma condição chamada choque medular entre os oito pacientes tratados experimentalmente.

O choque medular é um quadro comum entre pacientes que sofrem traumas na medula e que leva à perda temporária dos movimentos. Por isso, ele pode ser confundido com uma lesão medular completa nos primeiros dias após o trauma. Com o passar dos dias ou semanas, porém, pacientes que estavam em choque medular, mas com lesões incompletas, costumam recuperar os movimentos ao menos parcialmente.

Neurocirurgiões e cientistas vinham alertando que o artigo pré-print (não revisado por pares) publicado pelo grupo de Tatiana em 2024 na plataforma MedRXiv não trazia a informação se os pacientes tratados com a polilaminina tiveram o diagnóstico de choque medular descartado antes da aplicação da substância, já que, sem essa informação, não seria possível saber se os doentes que melhoraram tiveram eventual benefício da droga experimental ou melhorariam de qualquer jeito. Eles afirmavam que existem testes que podem ser feitos no paciente para avaliar se ele está ou não em choque medular.

O primeiro pré-print não trazia nenhuma informação se os pacientes do estudo piloto passaram por esses testes e nem sequer mencionava a questão do choque medular como fator de confusão para interpretar os resultados. Já a nova versão do artigo afirma que os participantes não estavam em choque medular quando ocorreu a aplicação da polilaminina.

Tatiana disse à reportagem que todos os pacientes passaram por um dos seguintes testes para descartar o quadro: o teste do retorno do reflexo bulbocavernoso ou o teste do sinal de Babinski, este último um exame que ajuda, mas não é considerado tão preciso quanto o primeiro para tal avaliação.

Na nova versão do artigo, os pesquisadores não detalham tais testes nem quais pacientes foram submetidos a qual técnica, mas descrevem: “Os exames de seguimento foram realizados, com a avaliação completa da AIS (escala de comprometimento da Associação Americana de Lesão Medular), por um fisiatra treinado da equipe. […] No momento da injeção, todos (os pacientes) já haviam recuperado os reflexos, o que indica que não estavam em choque medular”, diz o texto.

A versão original do artigo chegou a ser submetida para revistas científicas, mas foi rejeitado por ao menos três periódicos.

De acordo com a pesquisadora da UFRJ, as principais críticas feitas pelos revisores das publicações foram:

1) Os autores não souberam explicar o mecanismo de ação da polilaminina na medula;

2) Os dados aparentavam ser um “artefato”.

O termo “artefato” é usado na ciência para descrever quando os resultados ou efeitos parecem reais, mas são obtidos por falhas do método da pesquisa ou outros erros no desenvolvimento do trabalho.

A polilaminina passou apenas por estudos em animais e por um teste piloto em humanos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou em janeiro o início da fase 1 do estudo clínico da molécula, que testará a segurança do tratamento. Segundo Tatiana, a fase 1 deverá começar em abril. Caso a substância se mostre segura, ela ainda precisará passar pelas fases 2 e 3 para avaliações de dosagem e eficácia. Somente após essas etapas, o laboratório Cristália, que adquiriu os direitos da molécula da UFRJ, poderá entrar com o pedido de registro do medicamento.

Por

Fabiana Cambricoli | Estadão



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