A Polícia Federal prendeu novamente, nesta quarta (4), o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master. A prisão ocorreu no âmbito da terceira fase da Operação Compliance Zero, que investiga a suspeita de um esquema bilionário de fraudes financeiras envolvendo a instituição bancária.
Vorcaro foi preso em São Paulo junto do cumprimento de outros três mandados de prisão preventiva e 15 de busca e apreensão no próprio estado e em Minas Gerais.
O cunhado dele, o empresário e pastor Fabiano Zettel, também foi preso pela Polícia Federal. Ele se entregou à autoridade em São Paulo horas depois da prisão de Vorcaro, embora o mandado tivesse sido expedido em Minas Gerais.
Mendonça determinou a prisão, ainda, de Luiz Phillipi Machado Mourão e de Marilson Roseno da Silva, que faziam parte de um esquema de ameaça e coação de testemunhas liderado por Vorcaro.
Vorcaro mandou “quebrar os dentes” de alvo e tinha diálogo direto com diretores do BC
Ainda em meio à operação, dois servidores de carreira do Banco Central foram afastados das funções públicas por envolvimento com o banqueiro.
A Polícia Federal afirmou, ainda, que foram determinadas ordens de sequestro e bloqueio de bens, no montante de até R$ 22 bilhões, com o “objetivo de interromper a movimentação de ativos vinculados ao grupo investigado e preservar valores potencialmente relacionados às práticas ilícitas apuradas”.
A investigação descobriu indícios de lavagem de dinheiro após as duas primeiras fases da operação.
Em nota à Gazeta do Povo, a defesa de Vorcaro negou “categoricamente as alegações atribuídas a Vorcaro”, e afirmou que “confia que o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta” (veja na íntegra mais abaixo).
Já a defesa de Zettel afirmou que ainda está tomando conhecimento da investigação e que ele “está à inteira disposição das autoridades” (veja na íntegra mais abaixo).
Por outro lado, o Banco Central afirmou que a operação “representa um passo essencial para o pleno esclarecimento dos fatos” e que atuou em colaboração com a Polícia Federal.
“O Banco Central informa que identificou indícios de percepção de vantagens indevidas por dois servidores de seu quadro permanente de pessoal, durante revisão interna dos processos de fiscalização e liquidação do Banco Master. De imediato, o Banco Central afastou cautelarmente os referidos servidores do exercício de seus cargos e do acesso às dependências da instituição e a seus sistemas, instaurou procedimentos correcionais para apuração dos fatos e comunicou os indícios de prática de crimes à Polícia Federal”, afirmou em nota (veja na íntegra mais abaixo).
Ameaça a testemunhas
Além da fraude financeira, a Polícia Federal ressaltou que são investigados outros crimes como ameaça e invasão de dispositivos de informática. Já faziam parte da apuração as tipificações de corrupção e lavagem de dinheiro.
Isso, porque, a investigação descobriu a existência de um grupo de mensagens em que Vorcaro dava ordens para ameaça e coação de testemunhas, ex-funcionários e jornalistas — com grave violência — e obstrução de Justiça. Para isso, ele utilizava telefones celulares que não foram entregues aos policiais nas fases anteriores da operação.
Também se descobriu que um ex-diretor do Banco Central estava no grupo e que, em princípio, um policial federal aposentado seria o responsável por realizar as ofensivas contra testemunhas. Segundo fontes a par da investigação, ele é um dos presos nesta manhã, junto de uma pessoa que seria responsável pelo monitoramento de testemunhas e de jornalistas alvos de Vorcaro.
A investigação descobriu, ainda, que o grupo de Vorcaro conseguia acessar informações sigilosas de órgãos de segurança pública, como a própria Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Interpol, entre outros.
Os mandados foram autorizados pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator das ações penais envolvendo o Banco Master na Corte.
Defesas se pronunciam sobre prisões
Veja abaixo o posicionamento completo da defesa de Daniel Vorcaro sobre esta nova fase da operação Compliance Zero, da Polícia Federal:
A defesa de Daniel Vorcaro informa que o empresário sempre esteve à disposição das autoridades, colaborando de forma transparente com as investigações desde o início, e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça.
A defesa nega categoricamente as alegações atribuídas a Vorcaro e confia que o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta.
Reitera sua confiança no devido processo legal e no regular funcionamento das instituições.
Veja abaixo o que disse a defesa de Fabiano Zettel sobre a prisão:
Tendo tomado conhecimento da deflagração da 3ª Fase da Operação Complience Zero, a defesa de Fabiano Campos Zettel informa que seu cliente já se apresentou à Polícia Federal. Em que pese não ter tido acesso ao objeto das investigações, Fabiano está à inteira disposição das autoridades.
Veja abaixo o que disse o Banco Central sobre o afastamento de dois servidores de carreira:
A respeito da deflagração da 3ª Fase da Operação Compliance Zero, o Banco Central declara sua convicção de que o trabalho desenvolvido pela Polícia Federal representa um passo essencial para o pleno esclarecimento dos fatos.
O Banco Central informa que identificou indícios de percepção de vantagens indevidas por dois servidores de seu quadro permanente de pessoal, durante revisão interna dos processos de fiscalização e liquidação do Banco Master. De imediato, o Banco Central afastou cautelarmente os referidos servidores do exercício de seus cargos e do acesso às dependências da instituição e a seus sistemas, instaurou procedimentos correcionais para apuração dos fatos e comunicou os indícios de prática de crimes à Polícia Federal.
Esclarece o Banco Central que, observado o devido processo legal e o direito à ampla defesa, as condutas infracionais identificadas receberão a devida resposta sancionatória, de acordo com a lei.
Segunda prisão
Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro do ano passado durante a primeira fase da Operação Compliance Zero para investigar suspeitas de fraudes contra o Sistema Financeiro Nacional (SFN). A detenção ocorreu no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando ele se preparava para viajar a Dubai, onde supostamente teria negociações para a venda de parte do Banco Master.
A operação apurava a venda de carteiras de crédito sem lastro no valor de R$ 12,2 bilhões ao Banco de Brasília (BRB), que gerou um rombo que o governo do Distrito Federal discute como será compensado.
Após a prisão, Vorcaro passou por audiência de custódia na Justiça Federal em Brasília, que manteve inicialmente a medida cautelar. Dias depois, no entanto, a defesa obteve habeas corpus e o banqueiro foi solto mediante uso de tornozeleira eletrônica e cumprimento de outras restrições judiciais, como comparecimento periódico à Justiça.
Paralelamente ao avanço das investigações, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, alegando incapacidade de a instituição honrar compromissos financeiros, e outras instituições coligadas, como os bancos Letsbank, Will Bank e Pleno e a corretora Reag.
Em meados de janeiro, o ministro Fernando Haddad, da Fazenda, afirmou que as operações suspeitas do Banco Master podem configurar como a maior fraude bancária já vista na história do país.
A liquidação do Banco Master ocorreu um dia após a Fictor Holding apresentar uma proposta para adquirir a instituição controlada por Vorcaro. A decisão também ocorreu pouco mais de dois meses após a autoridade monetária rejeitar a tentativa de compra da empresa pelo Banco de Brasília (BRB).
Três meses depois da deflagração da primeira fase da operação Compliance Zero, a Fictor Holding pediu recuperação judicial alegando consequências pela transação que tentou realizar pelo Banco Master.
Por Gazeta do Povo









