Jovem de 22 anos foi estuprada, espancada e morta após dizer NÃO para traficante

Jovem é espancada até a morte após recusar sair com traficante em baile na Zona Oeste do Rio; família lamenta e DHC investiga suspeito com 12 mandados.

Publicado: 04/09/2025

FOTO: REPRODUÇÃO



A morte de Sther Barroso dos Santos, de 22 anos, mobiliza familiares e autoridades no Rio de Janeiro. A jovem foi espancada na madrugada de domingo (17/8), na comunidade da Coreia, em Senador Camará, após, segundo relatos, recusar-se a deixar um baile funk acompanhada de um traficante. De acordo com parentes, Sther foi deixada desfigurada na porta de casa, na Vila Aliança, e levada ao Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo, já sem vida. A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) conduz as investigações.

O que se sabe sobre o crime

Testemunhas apontam que a agressão ocorreu dentro do baile. A família diz que a jovem não tinha qualquer envolvimento com o crime. O principal suspeito citado pelos investigadores é Bruno da Silva Loureiro, o Coronel, ligado ao Terceiro Comando Puro (TCP), apontado como chefe da comunidade da Coreia e do tráfico no Muquiço, em Guadalupe. Há informação de que dois homens teriam participado do ataque sob seu mando.

Laudo e causas da morte

A certidão de óbito registra hemorragia subaracnóidea, traumatismo cranioencefálico e politrauma como causas. Os termos médicos indicam lesões múltiplas e sangramento entre o cérebro e sua membrana protetora, compatíveis com violência extrema. Parentes também denunciam estupro.

Sonhos interrompidos e rotina em construção

Sther vivia um período de recomeço: trabalhava como atendente de lanchonete, estava em processo para tirar a carteira de habilitação, havia comprado uma casa em seu nome e se preparava para mudar de apartamento. Em um caderno de metas, escreveu: “Vai ser o melhor ano da minha vida.” Em outra página, anotou: “Vai ser o melhor ano da minha vida, eu profetizo!”. Entre os objetivos para 2025 estavam concluir a autoescola, fazer três cursos, adotar um cachorro, manter a disciplina nos treinos e agradecer a Deus diariamente. Também desejava ver o irmão em liberdade e “ser usada para o bem”.

A família havia deixado o Muquiço, também dominado pelo tráfico, após serem roubados. A mudança simbolizava, para os parentes, um novo capítulo. Um dia antes do crime, Sther visitou o irmão preso e, naquela noite, contou à irmã que sonhou estar sendo perseguida e encurralada por homens.

Depoimentos da família

Durante o velório no Cemitério Ricardo de Albuquerque, pedidos de justiça e desabafos deram o tom da despedida.

— “Ela falou que não queria. Não é não, seu estuprador. Você ceifou a vida da minha irmã. Olha o que fizeram com ela, cheia de vida. Vou ter que falar para os seus sobrinhos, irmã, que a titia não vem mais” — disse a irmã de Sther.

A mãe, Carina Couto, reforçou a dor:

— “Ninguém tinha o direito de tirar a vida da minha filha. Lutem por justiça por ela. Eu não dormi naquela noite, fiquei ansiosa porque ela não chegava.”

A tia, Gisele Barros, relatou o impacto das agressões:

— “Até para abrir o caixão foi horrível. Eles deixaram ela irreconhecível. Além do espancamento, ainda teve o estupro. A menina era uma princesa, parecia uma boneca. Mesmo com todo o trabalho do IML, ela continuava desfigurada. Eles acham que são donos de todas as pessoas da comunidade.”

Segundo a família, houve necessidade de pagar cerca de R$ 2 mil para reconstrução do rosto, e há temor por ameaças atribuídas ao suspeito:

— “Não abandonem a causa da Sther. A família está com muito medo nesse momento.”

Em publicações nas redes, a irmã também registrou a perda: “Minha irmã tinha sonho de ser mãe de menino, tinha sonho de casar. E agora o que faço da minha vida sem você?”; “Entregaram minha irmã desfigurada e sem vida. Ele acabou com a vida da minha irmã no local em que estávamos refazendo a nossa vida. Tirou a vida da minha irmã. Só Deus tinha esse direito”; “ Estávamos em paz e felizes. Você (traficante) acabou com a nossa família. Já entregou minha irmã sem vida. Não tivemos tempo de ajudar. Desgraçou a minha família. Inaceitável. Minha irmã tinha sonho de ser mãe de menino, tinha sonho de casar. E agora o que faço da minha vida sem você?” e “Ontem eu estava ajudando ela se arrumar para curtir o show de um dos ídolos dela. Agora tenho que ver a roupa que vou enterrar minha irmã. Inaceitável. Nunca imaginei que isso poderia acontecer ali, onde estávamos refazendo a vida e sendo felizes. Conquistando nossas coisas depois de termos sido roubados onde éramos cria. Conquistamos tudo. Eu não tenho forças para imaginar a dor que minha irmã sentiu, o que passou na mão desse cara. Estou desacreditada completamente. Ela era diferente, especial”.

Suspeito, operação e histórico criminal

Bruno da Silva Loureiro, o Coronel, é apontado pela Polícia Civil como mandante do assassinato. Foragido, teria alternado esconderijos no Complexo da Maré e em áreas da Zona Oeste dominadas pelo TCP, como Vila Aliança e Coreia, onde costuma frequentar bailes funks. Na manhã de uma quinta-feira, ele e outro chefe da facção foram alvos de operação das polícias Civil e Militar em Vila Aliança.

Os órgãos de investigação atribuem a Coronel uma ficha extensa, com ao menos 12 mandados de prisão ao longo dos últimos cinco anos, por crimes como tráfico de drogas, roubo, homicídio, porte ilegal de arma de uso restrito, receptação, roubo de veículos e lesão corporal. O primeiro mandado de prisão preventiva foi expedido em 2019, em denúncia do Ministério Público que o acusou, junto com outros dois, de homicídio duplamente qualificado, associação para o tráfico e corrupção de menores em crime ocorrido em setembro de 2018, quando Douglas Luiz dos Santos Nascimento foi morto a tiros.

Outro mandado, de junho do ano passado, relaciona Coronel e um cúmplice a uma chacina no Parque de Madureira, em março de 2021, quando disparos durante uma partida de futebol mataram três pessoas e feriram outras duas, em meio a disputas entre TCP e Comando Vermelho. Testemunhos e laudos sustentam as acusações, e a Justiça destacou a gravidade das condutas e o risco à ordem pública ao decretar prisões preventivas. Há ainda denúncia que o vincula, como mandante, ao homicídio de Wanderson Rodrigo Bezerra Mariano, em maio de 2019, em Marechal Hermes.

A investigação em curso e o contexto da violência

A DHC informou que realiza diligências para apurar os fatos. Em paralelo, dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) registraram 49 vítimas de feminicídio no estado do Rio de Janeiro apenas no primeiro semestre deste ano — número que deve crescer com os casos de julho e agosto.

Para quem convivia com Sther, a lembrança que fica é a de uma jovem que esperava dias melhores, construía planos simples e buscava um futuro digno.

Com Informações de O Globo



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