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Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia faz 15 anos e sai em defesa da Caatinga, na PB

Segundo lideranças, o que sobrou do bioma está sendo derrubado para a instalação de parques de energia eólica e solar.

Publicado: 15/03/2024

Foto: Túlio Martins/Arquivo AS-PTA

A 15ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia acontece nesta sexta-feira (15) em Areial, Paraíba, com participação de cerca de 5 mil mulheres empenhadas em refletir sobre a importância da Caatinga para o enfrentamento da emergência climática. Com o tema “Mulheres em defesa do território: Caatinga viva, floresta em pé”, o movimento deste ano acontece na véspera do Dia Nacional da Conscientização sobre as Mudanças Climáticas (16 de março).

A Concentração da Marcha aconteceu na Praça Teotônio Barbosa a partir das 8h. Depois de uma caminhada pelas ruas de Areial e ato político com lideranças, a manifestação encerra com um show com Lia de Itamaracá.

“Muitas mulheres que vêm para a marcha se libertam de vários bloqueios e várias violências que sofrem. É um dia de luta, mas também um dia libertador. Muitas mulheres que vêm para a marcha dizem que não voltam a mesma mulher. Ela volta a uma mulher que se libertou, ela gritou, ela ecoou sua voz em com várias outras mulheres”, pontua a coordenadora da Marcha e coordenadora política do Polo da Borborema, Gizelda Beserra.

A Marcha é realizada desde 2010 pelo Movimento de Mulheres do Polo da Borborema. A cada ano, a mobilização acontece num dos municípios de atuação do Polo da Borborema com um tema específico.

Fazem parte do Polo as cidades de Solânea, Algodão de Jandaíra, Arara, Casserengue, Remígio, Esperança, Montadas, Areial, São Sebastião de Lagoa de Roça, Lagoa Seca, Alagoa Nova, Massaranduba e Queimadas.

“Vamos continuar marchando em defesa do nosso território, continuar reivindicando políticas públicas e fortalecimento da cultura familiar com base na agroecologia e continuar buscando cada mulher que ainda está presa no seu casulo para a luta coletiva. Por fim, a gente não vai deixar esses grandes parques aéreo e solar entrar no nosso território!”, diz Gizelda.

Mulheres agricultoras marcham em defesa da Caatinga durante a 15ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, na PB — Foto: Túlio Martins/Arquivo AS-PTA

Dilemas da Caatinga

Há três anos, as mulheres da Marcha têm chamado a atenção da sociedade para os impactos das indústrias de energia renovável nas comunidades rurais e defendem modelos descentralizados de geração de energia social e ambientalmente viáveis.

De acordo com elas, a instalação de parques industriais na Caatinga paraibana para produção de energia a partir da força dos ventos e do sol tem prejudicado esse bioma.

Um levantamento do MapBiomas de 2022 revelou que a produção de energia renovável está se tornando uma das principais atividades responsáveis pelo desmatamento. Uma área equivalente a quatro mil campos de futebol foi desmatada para instalação de placas solares e torres eólicas.

A Caatinga é reconhecida cientificamente por seu papel no sequestro de carbono da atmosfera e na fixação do mesmo no solo e nas plantas. O Dióxido de Carbono (CO²) pode perdurar na atmosfera por até mil anos e atualmente é responsável por 60% do efeito estufa. O desmatamento nesse bioma libera o carbono retido, contribuindo para seu aumento na atmosfera e consequentemente para o aquecimento global.

Por reconhecer a importância da Caatinga em pé, Gizelda pontua a urgência de se olhar para as iniciativas da região com um olhar cítrico: “é o único bioma exclusivamente brasileiro e está sendo ameaçado pelo avanço dos grandes empreendimentos de parque eólicos e de usinas solares. A Caatinga tem um papel fundamental aqui, inclusive, para os nossos agricultores e agricultoras. Não só do ponto de vista cultural, com as plantas que curam, mas também do bioma que envolve a nossa vida, nosso ganha pão”.

Violência no campo

Outra coordenadora da marcha, Roselita Vitor, ressalta a importância do movimento não só por denunciar as mazelas ambientais que assolam a região, mas também por dar voz às vítimas de violência no campo: “por exemplo, em 2016 existia uma série de estupros nas estradas rurais. 34 mulheres foram abordadas. E fomos nós que tivemos que ir atrás de políticas de acolhimento para essas vítimas. O movimento teve um papel fundamental”.

Recentemente, o Brasil foi julgado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) por dois casos de violação de direitos humanos ocorridos na Paraíba. Os processos são relacionados ao assassinato de Manoel Luiz e o desaparecimento de Almir Muniz, ambos trabalhadores rurais com histórico na luta agrária.

A violência no campo faz parte da história da Paraíba e os exemplos de Margarida Maria Alves João Pedro Texeira ressaltam a negligência do Estado brasileiro em relação à reforma agrária e direitos de trabalhadores rurais.

“A marcha tem cumprido um papel fundamental na vida das mulheres. Primeiro, construiu a identidade das mulheres camponesas e agora elas compreenderem que não estão sozinhas. Isso tem sido fundamental para que as mulheres construam a sua identidade para lutar pelos objetivos que nós queremos enquanto mulheres agricultoras camponesas. Isso é fundamental para a emancipação dos sujeitos!”, pontua Roselita.

Por g1 PB

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