Repleta de projetos para a população, UFCG esbarra em burocracias

A Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) é uma das universidades públicas que mais tem registros de patentes no Brasil

24 de abril de 2019    [post-views]

Reitoria da UFCG (Foto/Redes sociais).

A Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) é uma das universidades públicas que mais tem registros de patentes no Brasil. Segundo o Núcleo de Inovação e Transferência de Tecnologia (NITT) da instituição, foram registradas 122 patentes em 2018, representando mais que 50% do número alcançado pela Paraíba (232) no ranking nacional. Os dados são do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, que foram divulgados em janeiro de 2019.

O elevado número de Propriedade Intelectual no ambiente acadêmico tende a valorizar o conhecimento gerado pelos pesquisadores, o que resulta, por vezes, em parcerias com mercados nacional e internacional, mas nem sempre é fácil conseguir realizar as cobiçadas parcerias industriais.

Os alunos e professores visam desenvolver projetos que possam servir como utilidade pública, que prestem serviço às mais diferentes comunidades e parcelas da sociedade, uma vez que as ideias são direcionadas para uma diversidade de públicos, é necessário entender quais os desafios para integrar universidade e mercado.

Investimentos (reitoria)

Para o professor, vice-reitor e secretário de Planejamento e Orçamento da UFCG, Camilo Farias, a pesquisa serve de plataforma para o entendimento de tempo e espaço da academia, buscando soluções para problemas atuais e antecipando demandas sociais. Para ele, nesse contexto, a cooperação é imprescindível.

“Cooperar permite tanto o contato com outros centros de excelência, como com atores que traduzem as necessidades regionais. Assim, a UFCG tem como uma de suas prioridades o estabelecimento de parcerias públicas e privadas, nacionais e internacionais, ao tempo em que reconhece o seu papel propositivo e de vanguarda, na promoção do desenvolvimento econômico e social,” disse.

Ainda conforme o professor Camilo, a pesquisa na UFCG é financiada por diversos “atores” e abrange diferentes modalidades. Em termos de iniciação científica para graduação, são utilizados recursos do orçamento da universidade e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). São R$ 2 milhões anuais distribuídos em 410 bolsas para alunos de graduação. Os programas de pós-graduação oferecem 786 bolsas, 452 de mestrado e 334 de doutorado, o que resulta anualmente em um investimento de R$ 17 milhões.

Em 2018, a UFCG executou recursos do Programa de Apoio à Pós-Graduação em projetos de pesquisa junto ao Fundo Nacional de Saúde, Polícia Federal, Secretaria de Políticas, Programas de Pesquisa e Desenvolvimento e outros. Dessa forma, houve mantimento das infraestruturas laboratoriais, pagamento de inscrições, passagens e diárias em eventos técnico-científicos, entre outras ações.

Somado a isso, os pesquisadores submetem projetos de pesquisa individuais a vários órgãos de fomento, como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o CNPq. De acordo com o vice-reitor, a UFCG celebrou vários convênios com empresas, o que implica em apoio financeiro. Em 2018, por exemplo, consolidou 114 parcerias, tendo como interveniente a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba, resultando no retorno de R$ 59,9 milhões. Para ele, é devido a essas ações que a UFCG é uma das universidades que mais registra propriedade intelectual no país.

Gráfico do Núcleo de Inovação e Transferência de Tecnologia, números detalhados podem ser acompanhados pelo site (Imagem: Reprodução)

Ainda conforme o professor, foi noticiado no fim do ano passado que o recurso orçamentário garantido ao CNPq seria insuficiente para pagar as bolsas de projetos em 2019 para a UFCG. Recentemente, o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC), Marcos Pontes, participou da inauguração do Centro de Testes de Tecnologias de Dessalinização (CTTD) na universidade e falou sobre os cortes.

“Na oportunidade, ele afirmou que está estudando ações para evitar os cortes. Entendemos que a restrição das bolsas seria o último recurso e acreditamos na capacidade do governo para contornar essa possibilidade. É função da UFCG provocar e estimular o estudante a ingressar no universo das pesquisas e, possivelmente, numa pós-graduação. Eu sou pesquisador e sei que o sucesso do nosso trabalho pressupõe a existência de tranquilidade e dedicação às atividades investigativas,” afirmou Camilo Farias.

Para ele, o aluno-pesquisador, seja da graduação ou pós-graduação, já possui diversas preocupações, que vão desde a sua formação pessoal e profissional até a sua projeção no mercado de trabalho, assim, deve ser o mais abonado possível das inquietações que competem à gestão.

Alguns projetos

Dentro do Centro de Ciência e Tecnologia (CCT), por exemplo, há parcerias com a Marinha, Petrobras, Aveva, Accenture e outras. Há inclusive uma parceria recente do Laboratório de Referência em Dessalinização (LABDES) com o governo de Israel. Na Unidade de Engenharia Elétrica, por sua vez, há empresas parceiras como a Energisa e a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf).

O professor George Rossany, do Laboratório de Eletrônica e Potência da UFCG, explicou que o laboratório foi construído em 1974, começando a funcionar de fato em 1975, e desde o início vem se caracterizando como um dos laboratórios mais bem equipados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Nele são realizadas atividades de ensino e atividades de pesquisa e extensão, que são teses de mestrado, doutorado e de iniciação científica em nível de graduação. A UFCG, segundo o professor, é aberta a visitas de estudantes de outros estados, como tem recebido das universidades federais de Pernambuco, Alagoas e Sergipe, assim como de universidades privadas. Além disso, há prestações de serviços para a comunidade com ensaios de alta tensão, dentro da unidade, para empresas que já atuam no mercado.

Uma vez que no laboratório os professores e alunos testam materiais para rede elétrica, foi desenvolvida uma máquina de Radiação Ultravioleta que realiza envelhecimento em objetos. Quando os produtos são envelhecidos, é possível especificar quantos anos ele terá durabilidade se for comercializado.

Máquina de Radiação Ultravioleta para envelhecimento de materiais teve início com aluno de doutorado e hoje tem seguimento por um aluno de graduação (Foto: Mayara Oliveira/ Portal Correio)

Da mesma forma, também foi desenvolvida uma máquina que foi criada para fazer testes de trilhamento e erosão em materiais poliméricos. “A ideia é verificar, por exemplo, se depois de cinco anos o produto tem a capacidade de ter energizado no sistema elétrico, se ele não vai causar falha na rede, esse equipamento serve para testar se os materiais têm confiabilidade de estar funcionando na rede elétrica, sendo ele novo ou velho. Uma empresa só coloca um equipamento na rede elétrica se ela tiver confiabilidade no equipamento, daí a ideia,” explica o professor de Engenharia Elétrica Ronimack Trajano.

Máquina de trilhamento e erosão em materiais poliméricos desenvolvida por professores e alunos de Engenharia Elétrica (Foto: Mayara Oliveira/ Portal Correio)

Outro projeto, desenvolvido recentemente na UFCG, e que também já foi feito por outras universidades brasileiras, se trata de uma pesquisa do Laboratório de Síntese de Materiais Cerâmicos (LabSMaC), que coleta substâncias como óleo de fritura e acidificado, oleaginosas do semiárido e sebo bovino para transformá-las em combustível biodegradável.

O trabalho é executado pelas alunas de pós-doutorado Joelda Dantas, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e Ana Flávia Farias, da UFCG, sob a coordenação da professora Ana Cristina Costa, da Unidade Acadêmica de Engenharia de Materiais (UAEMa/CCT), no Campus de Campina Grande.

O óleo é coletado em lanchonetes, pastelarias e no restaurante universitário, dessa maneira o líquido não passa a ser despejado diretamente nos esgotos. O trabalho consiste em reaproveitá-lo para torná-lo biocombustível a partir de reações químicas de substâncias conhecidas tecnicamente como transesterificação e esterificação, utilizando elementos como níquel, zinco, cálcio, bário, cobalto, entre outros.

Ferrita é adicionada ao óleo para que se torne biocombustível (Foto: divulgação UFCG)

Toda essa a mistura, que é chamada ferrita, é adicionada ao óleo. Ela é a responsável pela conversão do material em combustível de forma mais acelerada (cerca de uma hora) e com alta eficiência, e ainda gasta menos energia, o que torna o conteúdo de baixo custo. A problemática desse projeto, no entanto, é competir com a indústria petroleira, o que não é fácil.

Indústria e desafios

Conforme a professora a frente do projeto, Ana Cristina Costa, o maior desafio para industrializar um projeto como esse, primeiramente é a divulgação, segundo ela, as empresas precisam ver, e além disso ter interesse nos trabalhos da universidade.

“É difícil as empresas terem interesses em apoiar, nós estamos sucateados pelo próprio governo também, recentemente o CNPq anunciou que até setembro alguns alunos não terão bolsas. Parece que o dinheiro só sai, não entra! Se as empresas também olhassem bem veriam que com as grandes dificuldades que temos fazemos muito e fazemos bem. São produtos que funcionam e merecem investimento,” colocou.

De acordo com Ana Cristina, se as empresas investissem e procurassem saber o que muitas vezes falta para a população, os materiais poderiam ser desenvolvidos. “Com esses óleos industrializados , por exemplo, poderíamos fazer detergente, sabão, biodiesel, fazer muitas coisas, inclusive doações para setores carentes. Poderíamos vender para comunidades e arrecadar dinheiro para a própria pesquisa. Eu não posso contratar ninguém para a produção, mas a empresa pode investir e colocar pessoas para trabalhar, dessa forma o retorno viria. E eu sei que não é possível gerar biocombustível para todo o país, mas deveria ter um investimento maior, se trata de um papel de conscientização,” enfatizou.

Da mesma forma, para George Rossany, a indústria muitas vezes não está aberta às novidades acadêmicas. “Vários produtos e equipamentos são desenvolvidos aqui, mas qual o grande gargalo que pelo menos na nossa perspectiva a gente enfrenta no Brasil? É a própria indústria brasileira. Nós temos uma indústria que ainda é muito mais voltada ao agronegócio, e basicamente isso, a gente não tem uma indústria de tecnologia muito bem desenvolvida,” disse.

De acordo com o professor, o Brasil prefere importar a produzir equipamentos e bens faturados no próprio país. “Muitas vezes a gente manda carretas e contêineres de minério de ferro pra fora do país ao preço de um iPhone, então como você equilibra a balança comercial dessa forma? Não equilibra! Nunca vai equilibrar enquanto a gente não realmente desenvolver equipamentos e produtos pra oferecer tanto no mercado interno quanto externo,” continuou.

Segundo o professor, as patentes também têm sua importância, já que é parte do estágio de processo de apresentação dos produtos ao setor produtivo, mas segundo ele, outro desafio é próprio processo de patente, que geralmente é demorado.

“Do dia que você pede ao dia que lhe é concedido uma patente é um intervalo de tempo significativo e na indústria as coisas são muito rápidas, se você desenvolver uma tecnologia hoje, pode ser que daqui a alguns meses ela já esteja superada. Então esperar cinco anos para poder comercializar aquilo com segurança não é interessante. A patente não é gratuita, o serviço público enfrenta diversas restrições orçamentárias, certamente existem dificuldades de manter a patente, a UFCG, inclusive, já perdeu para empresas patentes de projetos porque deixou de patentear,” relatou.

George ainda enalteceu a importância da UFCG em estar entre as universidades nacionais que mais registra patentes no país. “É um dado muito importante para uma região subdesenvolvida como essa, ou seja, mostrando a garra do pessoal daqui, a vontade de mudar a realidade e fazer alguma coisa diferente. Falta ainda muita coisa se tornar um produto, porque patente por patente não é nada, ela só vai gerar dividendo e prestar serviço à sociedade quando ela de fato virar um produto,” enfatizou.

Parque tecnológico como oportunidade

Na Paraíba, a Incubadora Tecnológica de Empreendimentos Criativos e Inovadores (ITCG), que é localizada em Campina Grande, foi concebida pela Fundação Parque Tecnológico da Paraíba (PacTC/PB) e apoia empreendimentos inovadores na identificação e desenvolvimento de ideias, visando viabilidade e inserção no mercado, como forma de promover o empreendedorismo no estado e na região, dando oportunidades para quem deseja expor ideias.

A ITCG oferece suporte técnico, gerencial, assessorias, mentorias e consultorias, facilitando o processo de inovação e o acesso às novas tecnologias, a fim de desenvolver ideias inovadoras e transformá-las em empreendimentos de sucesso através da Incubadora, que oferece duas modalidades.

A primeira delas é a Incubação Residente, na qual a empresa dispõe de todos os serviços oferecidos pela Incubadora e utiliza um espaço físico da instituição. A segunda é a Incubação Virtual, em que a empresa dispõe de todos os serviços oferecidos pela Incubadora, através de utilizações de ferramentas virtuais, podendo residir em qualquer região do Brasil.

A Incubadora Tecnológica não é exclusiva para projetos universitários, mas tem como missão apoiar projetos das universidades, uma vez que possua potencial de se tornar um negócio. A Incubadora ainda atende qualquer negócio que seja inovador e de base tecnológica, de acordo com a oferta de vagas.

Parque Tecnológico, localizado no bairro Bodocongó, em Campina Grande, ainda não conta com instalações, mas fornece atendimento para ideias que são desenvolvidas dentro das universidades (Foto: Mayara Oliveira/ Portal Correio)

Atualmente, o Parque Tecnológico, em Campina Grande, tem 13 negócios incubados, dos quais dois foram criados por alunos da UFCG, sendo eles o Portable Electronic Device for Evaluation of Neuropathy (PEDEN), um dispositivo eletrônico portátil que se propõe a quantificar com precisão o grau de perda de sensibilidade vibratória em pacientes de hospitais, promovendo assim a identificação da neuropatia periférica ainda em estados iniciais e diminuindo consideravelmente as chances de complicações futuras.

Além disso, pretende-se desenvolver uma ferramenta (aplicativo mobile) de modo a auxiliar o médico na condução do exame, bem como no armazenamento de dados sobre os pacientes com a finalidade de facilitar o acompanhamento do quadro da doença nestes.

Outro projeto incubado é a Isis Farm; ele oferece serviços de coleta e processamento de dados por imagem aérea, identificando e contabilizando falhas, localizando pragas, entre outros problemas em plantações. A startup é uma AgTech de análise que coleta de dados agrícolas com foco em mapeamento aéreo através de drones.

E para que uma ideia de negócio seja apoiada pela Fundação Parque Tecnológico ela deve ser inovadora e de base tecnológica. As ideias são selecionadas por edital publicado de acordo com a oferta de vagas na incubadora, ou ainda para os empreendedores que possuam uma ideia de negócio mais madura com o mínimo de operação, mas não necessariamente com faturamento, e que já tenham realizado testes com potenciais clientes.

Para quem tem interesse em expor uma ideia pode entrar em contato com a fundação e solicitar uma reunião para uma apresentação através de e-mail (itcg@paqtc.org.br). Além disso, os empreendedores podem cadastrar ideias no Banco de Oportunidades, uma vez cadastrada, tanto a incubadora como parceiros podem apoiar essa ideia nas suas demandas solicitadas, ela ficará numa vitrine online para oportunidades de negócios e o banco pode ser acessado pelo site da ITCG. 

Portal Correio