Em sua primeira entrevista após a condenação pelos atos de 8 de janeiro de 2023, a cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, de 40 anos, descreveu o período de mais de dois anos em presídios paulistas como um “inferno pessoal”. Presa preventivamente em março de 2023 e liberada para prisão domiciliar em março de 2025, ela agora cumpre pena em casa, em Paulínia (SP), monitorada por tornozeleira eletrônica (assista ao vídeo abaixo).
A fronteira invisível que delimita sua liberdade é o fim do gramado do jardim da casa com ares de chácara. Débora evita ultrapassar a calçada por medo de acionar o equipamento. “Incomoda bastante”, disse, coçando a região da tornozeleira enquanto recebia a reportagem.

Agonia no cárcere
A prisão começou na manhã de 17 de março de 2023. Débora dormia com o marido, o pintor Newton dos Santos, e os dois filhos pequenos quando agentes da Polícia Federal bateram forte no portão. Assustada, ela se trancou no banheiro, tentou ligar para a advogada e só saiu de pijama após ameaça de arrombamento da porta. Deixou a casa algemada, tentando tranquilizar as crianças de que voltaria logo.
Foram dois anos e 11 dias de transferências entre unidades em Rio Claro e Tremembé. O cheiro da cela foi uma das primeiras marcas: “Um cheiro forte de fezes, urina e cigarro”. Sozinha inicialmente em uma cela apertada e quase sem luz, ela pegou piolhos e sofreu com água fria que às vezes trazia vestígios de penas de urubus.
Quando dividiu a cela com outras detentas, a maioria de esquerda, evitou revelar o real motivo da prisão, dizendo ser traficante. A mentira durou pouco. A hostilidade veio imediata. Em Tremembé, enfrentou ameaças de morte e ficou vários dias sem dormir por causa do frio. Permaneceu 45 dias no local.
Débora trabalhou na prisão para reduzir a pena — “três dias trabalhados correspondem a uma remição” — e enviava o dinheiro ao marido para ajudar nos advogados. A defesa pediu repetidamente prisão domiciliar por causa dos filhos, hoje com 11 e 8 anos, mas o ministro Alexandre de Moraes negava, citando “periculosidade social”.

O gesto que marcou o 8 de janeiro
Entre janeiro e março de 2023, Débora viveu sob tensão. A foto em que escreve com batom vermelho a frase “perdeu, mané” na Estátua da Justiça do STF viralizou. Ela viajou a Brasília acreditando em uma manifestação pacífica para cobrar respostas sobre o processo eleitoral.

Na manhã de 8 de janeiro, na Esplanada dos Ministérios, atendeu ao pedido de um homem e escreveu a frase. “Eu me arrependo muito do que fiz naquele dia”, admitiu na entrevista. A imagem circulou amplamente e levou à sua identificação.
Vida suspensa em prisão domiciliar
Desde março de 2025, Débora está em casa, mas com restrições severas: não pode trabalhar como cabeleireira, frequentar cultos presenciais ou sair sem autorização judicial. A fé evangélica e a leitura da Bíblia foram seu principal apoio na cadeia e continuam sendo.
Os filhos ainda sentem o impacto da separação. Caio, o primogênito cujo nome significa “alegria”, deixou de sorrir como antes. Sempre que ouvem sirenes, as crianças temem que a mãe seja levada novamente.
A condenação pelo STF, mantida em julgamento, somou 14 anos de pena por crimes como abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado, deterioração de patrimônio tombado e associação criminosa armada. O ministro Moraes justificou a manutenção da prisão pela gravidade das condutas e prejuízo à União.
Débora afirmou que a família foi afetada emocionalmente e que só deseja “voltar a viver normalmente com toda a minha família”. A rotina atual limita-se às tarefas domésticas e ao cuidado dos filhos dentro dos limites da casa.
A defesa questionou demora na denúncia da PGR e comparações com outros casos em que prisão domiciliar foi concedida mais rapidamente. O caso continua gerando debates sobre proporcionalidade das penas aplicadas aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro.












