A tributação sobre importações de baixo valor, implementada em agosto de 2024, gerou uma arrecadação recorde de R$ 5 bilhões à Receita Federal em 2025. O resultado ocorreu mesmo com uma queda de 13% no volume total de encomendas internacionais no período, sinalizando uma profunda transformação nos hábitos de consumo online dos brasileiros.
Assista:
CONTEXTO DA MUDANÇA
A chamada “taxa das blusinhas” foi instituída para encerrar a isenção de impostos para produtos importados de valor igual ou inferior a US$ 50, aproximadamente R$ 260. A medida atendeu a uma antiga reivindicação de setores da indústria nacional e do varejo, que argumentavam enfrentar concorrência desleal.
Os defensores da taxação alegavam que a isenção criava uma distorção no mercado, pois produtos nacionais já nasciam com uma carga tributária embutida significativamente maior. O objetivo declarado era, portanto, equilibrar a competição e incentivar a produção doméstica, além de ampliar a base de arrecadação federal.
SALTO HISTÓRICO NOS NÚMEROS
Os dados da Receita Federal mostram um crescimento exponencial na arrecadação com importações nos últimos anos. O valor, que era de R$ 734 milhões em 2019, superou a marca de R$ 1 bilhão em 2021, influenciado pelo aumento das compras online durante a pandemia de Covid-19.
Com a vigência da nova regra em 2024, a arrecadação saltou para R$ 2,8 bilhões. O ápice foi alcançado em 2025, com os cofres públicos recebendo R$ 5 bilhões, um aumento de 73% em relação ao ano anterior. Esse recorde foi atingido em um cenário paradoxal de redução no volume físico de remessas, que caiu de 189 milhões para 165 milhões.
TRANSFORMAÇÃO NO PERFIL DO CONSUMIDOR
A Receita Federal identificou mudanças estruturais no comportamento de quem compra no exterior. Uma das práticas que recuou drasticamente foi o fracionamento de encomendas, técnica usada para dividir pedidos maiores em vários pacotes de menor valor, tentando burlar os limites de isenção.
Outro dado relevante é a diminuição no número de pessoas que realizam mais de cinco compras internacionais ao longo do ano. Isso indica que o consumidor se tornou mais seletivo, reduzindo a frequência de aquisições no exterior. Paralelamente, houve uma migração significativa de demanda para plataformas de e-commerce nacionais.
IMPACTO NO VAREJO E NO BOLSO
A medida produziu um duplo movimento na economia. Por um lado, setores do varejo e da indústria brasileira relataram um aumento na procura por produtos equivalentes disponíveis no mercado doméstico, especialmente em categorias como moda, eletrônicos básicos e utilidades domésticas.
Por outro lado, para itens de nicho, marcas específicas ou produtos tecnológicos mais avançados sem similar nacional, os consumidores continuam importando. A diferença é que agora o fazem de forma mais planejada, absorvendo o custo extra dos impostos e, muitas vezes, elevando o valor médio de cada compra.
NOVOS PADRÕES DE GASTO
Curiosamente, mesmo com menos pacotes entrando no país, o valor total em reais despendido pelos brasileiros em compras internacionais também alcançou um recorde. Os gastos subiram de quase R$ 15 bilhões em 2024 para R$ 18,6 bilhões em 2025.
Esse dado sugere que, apesar da queda no volume, o “ticket médio” das importações aumentou substancialmente. A interpretação é que os consumidores estão fazendo compras internacionais menos frequentes, porém mais caras, focando em produtos de maior valor agregado ou consolidando pedidos para otimizar o custo-benefício do frete e da tributação.
BALANÇO E PRÓXIMOS PASSOS
Do ponto de vista governamental, a política é considerada um sucesso em seus objetivos primários: arrecadar mais e proteger a indústria nacional. A arrecadação extra contribui para as contas públicas, enquanto parte da demanda foi efetivamente redirecionada para o mercado interno.
Para o futuro, especialistas acompanharão se o patamar recorde de arrecadação se sustentará ou se foi um pico inicial. A Receita Federal deve manter o foco no combate a tentativas de evasão fiscal, como o subfaturamento de notas. O consumidor, por sua vez, já demonstrou uma adaptação rápida, consolidando-se como um comprador digital mais estratégico e calculista, que navega entre as ofertas domésticas e internacionais com novos critérios.










