A Netflix pagou cerca de R$ 500 mil a Suzane von Richthofen, condenada por planejar e assassinar seus pais em 2002, para autorizar a realização de um documentário sobre a sua vida. A coluna apurou que o pagamento foi feito diretamente à ex-detenta para garantir a gravação do depoimento. O projeto, iniciado em novembro de 2025, está em fase de pós-produção e tem previsão de ir ao ar neste ano. Imagens do depoimento de Suzane viralizaram nas redes sociais na segunda-feira (6), após vazamento de uma sessão restrita, gerando forte repercussão e críticas ao sensacionalismo da plataforma.

Procurada por e-mail desde terça-feira (7), a Netflix disse que não divulga detalhes de suas produções. No entanto, fontes do mercado confirmaram os valores e as cláusulas contratuais. O documentário, chamado provisoriamente de “Suzane vai Falar”, foi encomendado após o sucesso de “Tremembé” — série de ficção com Marina Ruy Barbosa no papel de Suzane que se tornou a maior audiência da história da Amazon Prime Video no mercado brasileiro.
Os valores e os beneficiários
Suzane não foi a única a faturar com o documentário. Também houve pagamento para que pessoas da família autorizassem o uso de imagens e para concederem entrevistas. Um dos que recebeu foi o atual marido de Suzane, o médico Felipe Zecchini Muniz. Os valores pagos a familiares não foram divulgados, mas a coluna apurou que somam quantias significativas.
O acordo para que Suzane desse o depoimento inclui outros pontos. Um deles é um vínculo vitalício de confidencialidade sobre detalhes do acordo entre as partes — ou seja, ela não pode falar publicamente que recebeu dinheiro da Netflix para a produção. Suzane também não poderá conceder entrevistas para outros veículos e concorrentes da Netflix por período determinado em contrato. Isso se faz necessário para que o documentário tenha uma “janela de exclusividade”, garantindo que a plataforma seja a primeira a exibir sua versão.
O vazamento e a repercussão
Os trechos vazados do depoimento de Suzane mostram a condenada falando sobre o crime e sua trajetória na prisão. As imagens foram apresentadas para um pequeno grupo de convidados em março, mas alguém gravou e divulgou nas redes. O vazamento forçou a Netflix a antecipar parte de sua estratégia de marketing, mas a empresa não se manifestou oficialmente sobre o ocorrido.
Nas redes sociais, a reação foi dividida. Enquanto alguns internautas defendem o direito de Suzane contar sua versão e da plataforma produzir conteúdo sobre casos criminais, muitos criticaram o pagamento direto à condenada. “Ela matou os pais e ainda ganha dinheiro com isso. É um absurdo”, escreveu um usuário. Outro argumentou: “Se a Netflix quer fazer um documentário, que pague pelas imagens e entrevistas, mas não à assassina.”
Críticas do setor audiovisual
Profissionais do audiovisual brasileiro ouvidos pela coluna ficaram chocados com a produção de “Suzane vai Falar”. Um deles chegou a comparar a tática da Netflix com o que fez Gugu Liberato em 2003, quando produziu uma falsa entrevista com membros do PCC (Primeiro Comando da Capital) para aumentar sua audiência no SBT.
O receio é de que a produção mude a percepção geral de que o streaming não apela tanto quanto a TV aberta para o sensacionalismo em busca de audiência. Na visão desses profissionais, isso pode resultar no desaquecimento do mercado, que já não produz tanto conteúdo quanto há alguns anos.
“A Netflix está cavando a própria cova ao pagar para uma criminosa condenada. Isso deslegitima todo o mercado de documentários sérios”, afirmou um produtor.
Outro profissional destacou que a prática pode abrir precedentes perigosos:
“A partir de agora, qualquer criminoso de alta periculosidade vai achar que pode lucrar com sua história. Isso é um desserviço à sociedade.”
A resposta à Amazon
O documentário foi encomendado pela Netflix como uma resposta direta ao sucesso de “Tremembé”, produção da Amazon Prime Video. A série de ficção com Marina Ruy Barbosa no papel de Suzane se tornou a maior audiência da história da plataforma no Brasil, comprovando o apetite do público por narrativas baseadas no caso.
Com “Suzane vai Falar”, a Netflix aposta em um formato documental, com depoimentos reais, para tentar superar a concorrente. A estratégia é comum no mercado de streaming: após o sucesso de uma ficção, a plataforma rival produz um documentário sobre o mesmo tema, capitalizando o interesse do público.
O caso Suzane von Richthofen
Suzane von Richthofen foi condenada em 2006 a 39 anos e 6 meses de prisão por planejar e participar do assassinato dos pais, Manfred von Richthofen e Marísia von Richthofen, ocorrido em 2002. Na época, ela tinha 19 anos. O crime foi executado com a ajuda do então namorado, Daniel Cravinhos, e do irmão dele, Cristian Cravinhos.
Suzane cumpriu parte da pena e foi liberada em regime semiaberto, depois aberto. Atualmente, ela vive em liberdade condicional. O caso é um dos mais emblemáticos da história criminal brasileira, com cobertura da imprensa à época e diversas adaptações para o cinema, TV e literatura.
O futuro do documentário
A Netflix ainda não divulgou a data de lançamento oficial de “Suzane vai Falar”. A expectativa é que o documentário estreie ainda em 2026, possivelmente no segundo semestre. A plataforma deve investir pesado no marketing para garantir a audiência, especialmente após o vazamento dos trechos.
O debate sobre a ética de pagar diretamente a criminosos condenados por heinicios deve continuar. Enquanto isso, a produção segue em pós-produção, e a Netflix promete que o documentário trará “revelações inéditas” sobre o caso. Resta saber se o público aceitará ou não essa forma de contar histórias criminais.












