Um leilão de cavalos, que leva o nome de um dos cantores mais famosos do Brasil, recebe um lance vencedor.
“Uma, duas, em R$ 2.300. Sim ou não?”
“É nosso aqui.”
“Duas, três. Vendido!”
Segundo a Polícia Civil, quem fez essa compra, na verdade, queria lavar o dinheiro do tráfico de drogas.
O comprador é Ivan Moura, também conhecido como “Mauro Maromba”. Ele adquiriu o cavalo com o sócio, Yago Cavalcanti, que já foi candidato a vereador em Campina Grande. Yago já havia comprado outros quatro cavalos do haras de Safadão, que custaram cerca de R$ 1 milhão. Ele tinha 15 animais da mesma raça, Quarto de Milha, segundo a polícia.
A investigação aponta que Yago montou um haras no Rio Grande do Norte, e os cavalos eram arrematados, muitas vezes, por valores inflacionados. Em conversa por aplicativo de mensagens, Ivan Maromba avisa:
“Tu se liga quando for comprar pros cara não enganar você. Porque parece que o cara passou mais caro a você, né?”
Yago responde: “Mas não tem nada, não. Depois eu te digo quanto vai valer na minha mão.”
Segundo o delegado do caso, Lucas Rothardand, “o leilão de cavalo em si, para Yago e para Ivan, foi visto como uma forma de fazer uma automonetização sem uma contrapartida de fiscalização. Foi uma forma deles adquirirem alguns animais e, posteriormente, vender esse bem a fim de que o dinheiro volte pra ele com uma colocação limpa.”
O leilão virtual levava a marca do cantor Wesley Safadão, que estava presente na noite dos lances. Mas como Yago e Ivan arremataram os cavalos à distância, receberam um vídeo de Safadão agradecendo pela compra, o que costuma ser praxe nesse tipo de evento.
De acordo com o coordenador da DRE, Afrânio Brito, “tentaram a todo tempo se aproximar da questão do cavalo, da questão de pessoas sérias que usam o cavalo para tentar levar, catapultar o seu nome no meio da sociedade e estavam conseguindo ganhar uma certa credibilidade com isso.”
Questionado se o cantor Wesley Safadão estaria sendo investigado, o delegado esclareceu: “Não. Nem nenhum fornecedor está verificado como investigado nessa investigação.”
A assessoria de Wesley Safadão afirma que “o arremate dos animais é feito ao vivo, através do contato do interessado com a leiloeira. E que não houve qualquer contato direto com o artista.”
Além de esconder o dinheiro do tráfico na compra de cavalos caríssimos, usados em competições de vaquejada, o grupo criminoso estava de olho em outro negócio: empresariar cantores de forró e oferecer os shows às prefeituras do Nordeste.
Em áudio interceptado, Yago afirma:
“Tem que entrar em prefeitura, porque aí você vai começar a ganhar bem por cada show, entendeu? Se não for para entrar em prefeitura, não vale a pena não. Porque essas festinhas assim, não vale a pena, não.”
Yago aparece, inclusive, no clipe de um artista agenciado por ele.
A defesa afirma que o cantor buscava encerrar o contrato, e que ele não participou, nem conhecia qualquer atividade ilegal praticada por Yago Cavalcanti.
A agência de cantores seria mais uma estratégia para ocultar uma fortuna vinda do tráfico de cocaína, crack e skank da facção criminosa Nova Okáida, uma das principais da Paraíba. A quadrilha teria movimentado cerca de R$ 150 milhões em apenas dois anos.
O delegado Lucas Rothardand detalha a atuação do suspeito: “O Ivan estava começando a tomar as rédeas do controle financeiro e de pontos de tráfico aqui na região do Acácio Figueiredo, que é uma região grande, populosa, aqui de Campina Grande. A gente identificou que ele era um conselheiro rotativo da Nova Okáida.”
Em várias conversas, Ivan Maromba é flagrado negociando drogas com Naudivânio Ferreira, o “Lourinho”, apontado como chefe operacional da facção e que morreu em confronto com a polícia. Em janeiro deste ano, Ivan chega a reclamar com “Lourinho” da qualidade do crack — que ele chama de “óleo”:
“Mandaram um óleo aí ‘fake’, entendeu? Aí, eu mandei voltar. Aí, tu já ‘arrumou’, já?”
O grupo também comercializava armamento pesado e de uso restrito. Ivan Maromba e “Lourinho” discutiam abertamente o preço dessas armas.
As investigações apontam que Ivan Maromba atuava diretamente na disciplina da facção. Em um dos áudios, ele chega a autorizar a morte de um homem:
“Pode fazer, pode fazer. Põe ele aí, pode entrar. Você mete ele no aço, viu? E deixa o resto com ‘nós’, advogado tem, a gente resolve. Se entrar aí, nele aí, pode descer o aço, viu?”
As atividades criminosas não estavam só nas ruas, mas também dentro da casa de Ivan Maromba, segundo a polícia. A mulher dele, Miriam Ferreira, declarava ser vendedora, com uma renda estimada em R$ 1.412. Só que os investigadores descobriram que ela abriu uma empresa de fachada. Em apenas quatro meses, a conta da empresa de Miriam movimentou R$ 144 milhões.
Com todo esse dinheiro, os chefes do grupo bancavam uma vida de luxo: jet-skis, carros, casas em condomínios fechados. Em vídeo gravado no celular, Ivan ostenta:
“Aqui não é ‘comediagem’, não. Aqui é assim, ao vivo, ó. Se liga aí. Quase meio milhão nessa. ”
Era tanta ostentação que pessoas próximas chegaram a alertar Ivan Moura sobre o risco de chamar a atenção dos inimigos ou até da polícia:
“Se liga, Mourinha! Para não ‘tá’ postando essas coisas! Se liga, Mourinha, Mourinha, Mourinha!”
Foi exatamente o que aconteceu. Uma operação da polícia prendeu 13 suspeitos de envolvimento com os crimes. Entre eles, Yago Cavalcanti, que foi preso enquanto tentava fugir por uma estrada da Paraíba. A defesa dele não foi encontrada para comentar o caso.
Ivan Maromba também foi detido, de um jeito que surpreendeu até a polícia. O coordenador da DRE explicou como ocorreu a prisão:
“Começamos a revistar a casa e o cachorro do nosso canil sentou do lado da cama. E, quando levantou a cama, era um box, aqueles tipo de um baú, né? Ele tava dentro.”
Junto com ele, foi presa a esposa, Miriam Ferreira. A defesa do casal afirma que “todas as medidas judiciais estão sendo adotadas. E que os fatos serão esclarecidos.”
A Justiça autorizou o bloqueio de até R$ 144 milhões nas contas dos suspeitos. Eles podem responder por organização criminosa, tráfico de drogas, comércio ilegal de armas e lavagem de dinheiro.
Um final inesperado pra Ivan Maromba, que deu o seguinte conselho pra própria filha:
“Quem trabalha não tem nada. Quem não faz nada, mas controla o que faz, é que tem dinheiro. Quem trabalha duro não tem dinheiro.”
O delegado geral André Rabelo avalia a estratégia policial:
“Dentro do que a gente está vivenciando, dessa luta contra o crime, especialmente contra o crime organizado, esse modelo de prender só aquele pequeno bandido que está começando no crime, isso já não está dando a resposta necessária.”
E o coordenador da DRE conclui: “Ele vivia no mundo do glamour, mas ele também se inseria no crime.”
Por Fantástico/G1












