Vídeo | Cabo Gilberto atribui a Bolsonaro conclusão da transposição do São Francisco; checagens apontam que obra atravessou vários governos

Deputado publicou vídeo nesta sexta‑feira (24) agradecendo ao ex‑presidente Jair Bolsonaro, com aura de que “ele terminou toda a transposição”. Dados oficiais, porém, mostram que a maior parte da obra estava pronta antes de 2019 e que o governo Bolsonaro foi responsável por cerca de 1,7% da conclusão.

Publicado: 24/04/2026

Foto: Reprodução/Instagram


O deputado federal Cabo Gilberto Silva (PL‑PB) publicou nesta sexta‑feira (24) um vídeo nas redes sociais em que agradece ao ex‑presidente Jair Bolsonaro e afirma que ele “concluiu toda a transposição do Rio São Francisco”. A declaração reacende, em clima de disputa política, a discussão sobre de quem foi “a paternidade” da obra, símbolo crucial para várias regiões do Nordeste, incluída a Paraíba (assista ao vídeo abaixo).

O que dizem as checagens

Segundo checagem do Fato ou Fake, do g1, a afirmação de que Bolsonaro “conseguiu a transposição do São Francisco” ou que a concluiu inteiramente é considerada falsa quando sugerida como se a obra tivesse sido feita em sua gestão apenas. De acordo com a publicação, o projeto foi iniciado em 2007, durante o governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e passou por diferentes etapas e entregas ao longo de mais de uma gestão federal.

Os números da obra

Uma parte importante do debate está nos números. Relatórios do Ministério do Desenvolvimento Regional, obtidos pela Revista Fórum e citados em checagem da Revista Saiba Mais, apontam que, quando Jair Bolsonaro assumiu a Presidência, em 2019, 96,9% da transposição já estavam concluídos. Técnicos apontam que, juntos, os governos de Lula e Dilma Rousseff responderam por cerca de 92,5% da execução física dos eixos Norte e Leste — trechos considerados a estrutura central do projeto.

Já em um novo relatório, de 2022, os mesmos técnicos estimam que o governo Bolsonaro foi responsável por apenas 1,74% da conclusão da obra, elevando o total de execução física para 98,64%. Em termos práticos, isso significa que a parte executada entre 2019 e 2022 foi relativamente pequena, em comparação com o que já havia sido feito em governos anteriores, mesmo que o governo federal tenha investido mais de 4 bilhões de reais no período e afirmasse que completou a operação dos eixos Norte e Leste.

Entregas ao longo dos governos

Trechos da obra, aliás, foram entregues em gestões distintas. A checagem do g1 destaca que Dilma Rousseff entregou a estação de bombeamento do Eixo Norte em 2015, Michel Temer inaugurou o Eixo Leste em 2017 e Bolsonaro esteve no Ceará, em 2020, para inaugurar um dos trechos finais do Eixo Norte. Em todas essas ocasiões, o próprio governo à época ressaltava que a obra se tratava de etapa dentro de um empreendimento muito maior e de longa duração.

A formulação mais precisa

Ou seja, a formulação mais precisa, à luz das checagens e documentos oficiais, é que a transposição começou em 2007, avançou em governos de Lula, Dilma e Temer, e foi praticamente concluída em 2019‑2022, com parcela pequena executada no governo Bolsonaro. Distante de “ter feito ou concluído toda a transposição”, como sugere o vídeo de Cabo Gilberto, o que ocorreu foi a conclusão de etapas finais e a entrega de trechos importantes, mas já enquadrados em um projeto quase pronto.

Contexto político e desinformação

A postagem do deputado paraibano ocorre em um contexto em que a transposição do Rio São Francisco segue sendo usada como ativo simbólico no debate político nordestino, especialmente em Estados como Paraíba, Pernambuco, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte, diretamente beneficiados pelo sistema de eixos e ramais. Nesse cenário, narrativas que simplificam a autoria da obra em uma única gestão tendem a reforçar polarização e desinformação, já que a realidade aponta para um esforço construído, em boa parte, antes de 2019.

Conclusão

Embora o vídeo de Cabo Gilberto fortaleça a tese de que Bolsonaro “terminou toda a transposição do Rio São Francisco”, o histórico da obra e as checagens disponíveis mostram que essa leitura não se sustenta. Os registros apontam para um projeto iniciado em 2007, com entregas e conclusões distribuídas ao longo de diferentes governos federais — e a fatia de 1,74% executada em 2019‑2022, embora importante, não é compatível com a ideia de que “todo o trabalho” tenha sido feito por um único presidente.

Por

Redação



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